Nova atualização da norma amplia o olhar sobre riscos psicossociais e reforça a importância dos espaços de pausa, concentração e descompressão nas empresas
Em maio deste ano, a saúde mental dos trabalhadores passou a ocupar, oficialmente, um lugar de destaque na gestão de riscos ocupacionais das empresas brasileiras. Com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entrou em vigor no dia 26/05, fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho passam a integrar de forma explícita o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), exigindo que as empresas identifiquem, previnam e reduzam situações que possam comprometer o bem-estar físico e emocional de seus colaboradores. Na prática, as empresas precisarão avaliar e controlar não apenas riscos físicos, químicos, biológicos e ergonômicos, mas também fatores como sobrecarga de trabalho, metas excessivas, jornadas inadequadas, conflitos interpessoais, assédio e outras condições que possam contribuir para o adoecimento ocupacional.

Nesse cenário, a ergonomia, o planejamento e a organização dos ambientes de trabalho ganham ainda mais relevância. Mais do que cumprir uma exigência legal, as empresas são chamadas a repensar suas estruturas físicas e seus processos internos para criar condições que favoreçam o conforto, a segurança, a saúde mental e um ambiente de trabalho mais saudável. Mas, afinal, o que muda na prática com a atualização da NR-1 e como as organizações podem se adequar a essa nova realidade?
Para a consultora em ergonomia da Maqmóveis Janaína Cristina Ferreira Aguirre, a atualização da NR-1 representa um avanço importante, já que “fortalece uma abordagem preventiva e sistêmica da saúde e segurança do trabalho. O foco deixa de estar apenas no cumprimento de exigências legais e passa a exigir uma análise mais aprofundada das condições reais de trabalho, com ações efetivas para promover ambientes mais seguros, saudáveis e sustentáveis”. Ainda, a especialista explica que a mudança também fortalece a conexão entre a NR-1 e a NR-17, que também trata de ergonomia e reconhece que muitos riscos psicossociais têm origem na organização do trabalho. “Dessa forma, as avaliações ergonômicas passam a ter papel estratégico não apenas na adequação física dos postos de trabalho, mas também na identificação de fatores organizacionais que impactam a saúde mental e o bem-estar dos trabalhadores”, fala Janaína.
Entre as práticas que contribuem para o bem-estar dos profissionais estão as pausas laborais. Embora frequentemente associadas apenas ao descanso muscular, elas exercem uma função importante na recuperação física, cognitiva e emocional dos trabalhadores. “Em atividades marcadas por alta demanda mental, pressão por resultados, atendimento constante ao público ou uso intensivo de computadores, as pausas ajudam a reduzir a fadiga, preservar a capacidade de concentração e minimizar sintomas relacionados ao estresse e à sobrecarga”, explica Janaína. Ainda assim, a especialista ressalta que elas não devem ser encaradas como uma solução isolada, mas como parte de uma estratégia mais ampla de promoção da saúde ocupacional. “É necessário pensar também na adequação das cargas de trabalho, em metas compatíveis com a capacidade humana, numa liderança saudável, em autonomia na execução das atividades e num ambiente organizacional positivo”, acrescenta.
É claro que ambientes físicos mais saudáveis para os trabalhadores dependem de bons projetos arquitetônicos, escolha adequada de mobiliário e atenção à ergonomia, e por isso as empresas têm que levar em conta esses critérios para compor seus locais de trabalho. Postos de trabalho bem dimensionados, tanto do ponto de vista de área espacial, quanto da adequação do mobiliário ao usuário são cuidados essenciais para promover o bem-estar físico dos profissionais. Móveis ergonômicos contribuem para evitar lesões e más-posturas que podem acarretar em problemas de saúde no futuro.

Mas esses elementos não servem exclusivamente à prevenção de desconfortos físicos, e passaram a compor estratégias de qualidade de vida no trabalho, “porque as empresas começaram a compreender que o ambiente físico influencia diretamente a experiência do trabalhador, seu desempenho, sua saúde e seu bem-estar ao longo da jornada”, conta Janaína. Assim, ambientes planejados para favorecer o conforto, a colaboração e a recuperação física e mental, como áreas de convivência e espaços de descompressão, ganham relevância dentro desse contexto.
A especialista destaca, porém, que a simples criação desses ambientes não atende, por si só, às exigências da nova norma. “Espaços de descompressão, mobiliário ergonômico e ambientes bem planejados são importantes, mas qualidade de vida no trabalho não se constrói apenas com o espaço físico. O ambiente precisa apoiar a recuperação física e mental das pessoas e estar alinhado a uma organização do trabalho saudável”, finaliza.
