Nova regulamentação em São Paulo torna obrigatórias salas de regulação sensorial em shoppings e amplia a discussão sobre ambientes mais inclusivos e acolhedores
No início de junho deste ano, o Governo do Estado de São Paulo regulamentou a lei que torna obrigatória a implantação de salas de regulação sensorial em shopping centers, marcando mais um avanço nas políticas de inclusão voltadas às pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras neurodivergências. O decreto estabelece que esses espaços devem ser projetados para reduzir estímulos externos e auxiliar na autorregulação sensorial e emocional dos usuários. Além disso, determina que as salas estejam localizadas em áreas de fácil acesso, preferencialmente próximas às entradas e saídas dos centros comerciais, com sinalização visível e livres de barreiras que dificultem sua utilização.
Embora a nova exigência se aplique aos shoppings centers, o debate sobre ambientes sensoriais vai além desses espaços. Escolas, clínicas, empresas, aeroportos e outros espaços coletivos vêm incorporando soluções arquitetônicas e de mobiliário voltadas ao conforto sensorial, alinhando inclusão, acessibilidade e bem-estar em seus projetos. Para compor esses espaços, o design, a arquitetura e o mobiliário têm papel fundamental, já que são os elementos que garantem a sensação de segurança, previsibilidade e acolhimento, pois as salas de regulação sensorial são projetadas para reduzir estímulos excessivos e oferecer condições adequadas para que pessoas com TEA ou neurodivergentes possam recuperar o equilíbrio emocional diante de situações de sobrecarga sensorial. Diferentemente de salas de espera convencionais, esses espaços são planejados para transmitir tranquilidade e organização, evitando elementos que possam gerar desconforto ou distrações excessivas.
Para compor uma sala de regulação sensorial é preciso prestar atenção a diversos fatores que influenciam diretamente na experiência dos usuários. “A escolha do mobiliário, por exemplo, deve levar em conta critérios como conforto físico, segurança e suporte à autorregulação sensorial”, diz a arquiteta Bruna Vieira de Assis, especialista em arquitetura inclusiva e idealizadora do escritório de arquitetura Inclua Arquitetura Escolar, infantil, clínica e inclusiva.
Segundo Bruna, os critérios para seleção dos móveis devem incluir: design simples e funcional, sem excesso de detalhes visuais; cores suaves e harmoniosas, que favorecem a tranquilidade e a concentração; materiais agradáveis ao toque, com texturas confortáveis e suaves; ergonomia adequada, para promover bem-estar e permanência com conforto; flexibilidade de uso, permitindo diferentes formas de ocupação conforme as necessidades individuais; e elementos de refúgio e acolhimento, como nichos, poltronas envolventes, bancos com encosto e espaços de recolhimento.

Ainda, a arquiteta cita o conforto e a previsibilidade visual como aspectos importantes a serem considerados nos espaços de regulação sensorial, já que ambientes excessivamente carregados de informações visuais podem gerar ansiedade e dificuldade de concentração. “A previsibilidade é um aspecto essencial para muitas pessoas autistas: a organização visual dos espaços reduz a necessidade constante de interpretação e adaptação, favorecendo a sensação de segurança”, diz.
Algumas estratégias incluem: a padronização de cores e materiais; hierarquia visual clara; mobiliário disposto de forma lógica e consistente; e uma sinalização simples e compreensível. O objetivo é proporcionar uma experiência mais controlada, permitindo que o usuário encontre um ambiente previsível, silencioso e confortável para se reorganizar antes de retornar às atividades do cotidiano.
De forma geral, a arquitetura de interiores inclusiva voltada para o público do espectro autista deve controlar a quantidade e a intensidade dos estímulos visuais, sonoros, táteis e luminosos presentes em um espaço. Assim, além dos critérios já citados, esses projetos devem priorizar:
- Organização espacial clara e intuitiva, facilitando a compreensão do ambiente e promovendo autonomia.
- Setorização bem definida, permitindo identificar facilmente a função de cada espaço.
- Circulações simples e previsíveis, reduzindo confusão e insegurança.
- Redução de excessos visuais, evitando poluição visual causada por muitas cores, formas ou informações simultâneas.
- Controle acústico, minimizando ruídos externos e reverberações que podem causar desconforto sensorial.
- Iluminação equilibrada e indireta, evitando ofuscamentos, sombras excessivas ou luzes piscantes.
Portanto, é necessária a união harmônica da arquitetura, do design e do mobiliário para compor salas de regulação sensorial, e é esse arranjo que garante uma boa experiência do usuário nesses ambientes. Como já citado pela arquiteta, a escolha dos móveis deve priorizar o conforto, a segurança, a ergonomia e o design simples.

No portfólio da Maqmóveis é possível encontrar móveis com essas características, e Bruna escolheu, junto com sua equipe, alguns para montar uma sala adequada para os usuários autistas e neurodivergentes. No ambiente proposto pelas profissionais do Inclua, que também conta com a arquiteta Caroline Pereira e a estagiária Lorena Mendonça, o objetivo é que o espaço transmita as sensações de acolhimento, silêncio, previsibilidade e tranquilidade. Confira aqui os móveis selecionados pelo time do escritório Inclua:
Sofá Jataí: este móvel traz consigo a ideia do casulo e da proteção, é um assento que ajuda na autorregulação da pessoa com TEA, que pode sentar-se nele com outra pessoa de apoio e até mesmo com seu cão de suporte emocional. As infinitas possibilidades de materiais para acabamento auxiliam na questão sensorial.
Poltrona Pólen, da linha Jataí: flexível, este item tem um design lúdico que remete a sentar-se no chão, porém com o conforto de um móvel praticamente anatômico. Fácil de compor em ambientes voltados para o relaxamento.
Escrivaninha suspensa Própolis: o design simples, porém extremamente funcional, remete à uma cabine: individual, restrita e acolhedora. Mas para que se integre bem ao ambiente, reforçando sua característica acolhedora, a escolha de cadeiras e banquetas confortáveis e ergonômicas são fundamentais.
Gaveteiros volantes de diversas linhas: flexíveis, se adaptam a inúmeras propostas de layout criando composições variadas e, por sua característica volante, auxiliam na setorização de espaços integrados.
Banco Flip: o design remete aos antigos bancos de praça, mas combinado a linhas mais contemporâneas em suas réguas de madeira e na base metálica. O desenho simples e limpo, sem complicação, privilegia a funcionalidade do móvel, pronto para acolher e convidar ao sentar e permanecer. Recomendado em áreas externas ou ambientes de transição.

A criação de salas de regulação sensorial acompanha uma transformação mais ampla na forma como instituições públicas e privadas compreendem a acessibilidade. Com a recente regulamentação em shopping centers, a tendência é que essas salas ganhem cada vez mais espaço nos projetos de escolas, clínicas e até em ambientes corporativos. Afinal, mais do que atender exigências legais, investir em ambientes sensoriais representa um compromisso com a inclusão e a diversidade.
